Parece que sempre temos que ser mais
rápidos do que podemos. Será que faz parte da nossa contemporaneidade? Ou
apenas parte da essência do nosso Ser? Não sei, mas tenho certeza que não dá
tempo de ficar divagando sobre isso. As coisas parecem mais rápidos, seus
dedos, enquanto digitam, estão voando. Parece que cheirei cocaína! Mas não tem
nada disso, sou um cara clean, tirando o álcool, claro. E o cigarro que respiro
no trabalho dos colegas. Parece que sempre estamos tão apressados que nem
podemos parar para pular de parágrafo e deixar uma história ou relato mais
fluido. Juro que não queria fazer assim, mas me comprometi a escrever essa
crônica em tempo recorde. O comprometimento não é uma aposta com ninguém. Não.
N˜åo tem ninguém aqui do meu lado. Estou inclusive sozinho na casa inteira. E
nem por isso me dou o trabalho de corrigir os erros gramaticais que vou
atropelando enquanto digito nessa máquina. Está difícil. Está muito rápido
tudo. Preciso me concentrar, porque quando chegar a hora, n˜åo terei nada mais
a fazer a não ser sair correndo e deixar para trás esse trabalho. Tomara que
consiga apenas pressionar cntrl + s. Saco. Escrever “cntrl” me fez pensar se
escrevi essa palavra certa. Pensei em procurar no Google para ver se é assim
que abreviam isso, mas quer saber? N˜åo temos tempo. Escrever num Macintosh tem
um grande problema (e já escrevo nele há muito tempo!): os acentos são
diferentes de Windows. Mas o problema é que é preciso pressionar duas teclas ao
mesmo tempo e na velocidade que estou, acabo pressionando a letra que precisa
do acento e a letra seguinte, fazendo o meu Word não entender a palavra que
gostaria que ele entendesse. Ah, se os computadores fossem mesmo inteligentes
eles saberiam dizer que "n˜åo" significa “não”. Tive que desacelerar para
escrever a última frase. Meu Deus. Não vai dar tempo. Está tudo perdido. Cntrl
+ s. No Macintosh é command + s. Droga! Não temos tempo para letras a mais.
Sigamos os clichês. Não existe relógio que te apressa mais do que a vontade de
ir ao banheiro. Fui.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
segunda-feira, 21 de julho de 2014
520 milhões de anos
Estava
naquele momento matinal vendo coisas inúteis da vida e me deparei com uma
matéria: haviam encontrado um fóssil de 520 milhões de anos (é tempo pra
cacete) e que seu cérebro havia sido preservado – no fóssil, claro. Foi encontrado
no antigo mar da China, mas como não me lembro dos números da aula de
Geografia, fiquei pensando que a China era a Pangeia e vice-e-versa, então era
tudo o mesmo mar. Podia ser um bichinho brasileiro também, poxa. Tudo tem que
ser chinês agora?
O
curioso é que você imagina que em mais de meio bilhão de anos, a gente seria
absolutamente evoluídos e conseguiria, com auxílio de algumas máquinas
esquisitas, assistir o que estaria dentro desse cérebro preservado antigo. Imaginei
vários cientistas dentro de uma sala ultra-moderna de cinema assistindo o mundo
antigo através dos olhos do Lyrarapax
unguispinus (cntrl C + cntrl V). Bichinho aquático, pequeno, menos de 10
cm. Nada pra cá, nada pra lá. Alguns cientistas comentam a rotina do animal. E aí
imaginei algo: o próprio bichinho se olhando em seu reflexo fazendo alguma palhaçada, pensando que 520 milhões de anos depois, alguém assistiria àquilo
e risse.
E
então ficou consciente e claro algo que fazia há muito tempo. Muitas vezes no carro, ou em qualquer outro lugar, eu pensava numa piada. Mas por infortúnios do
destino, estava sozinho. E para não perder o timing, eu contava pra mim mesmo,
olhando pra cima, pensando: cara, quando eu morrer, vou rever minha vida e pelo
menos terão boas piadas de mim para mim mesmo. Apontava para o céu e ria me
imaginando rindo daquilo.
E
mais importante ainda, quem sabe daqui 520 milhões de anos, alguém encontre meu
corpo e consiga assistir minha vida inteira através do meu cérebro fossilizado.
Todos num cinema mega-plus moderno, vendo tudo passar pelos meus olhos.
E de repente, tudo começou a ter sentido minha vida. O "hoje" passou a ser valorizado para que em 520
milhões de anos, alguém dê um sorriso. Espero fazer boas piadas e armazenar
direitinho para você, seu cientista-retardado-que-está-assistindo-minha-vida-pelo-meu-cérebro!
Ha!
segunda-feira, 14 de julho de 2014
assunto:
Existe uma forma
de arte, de prosa, de literatura, que está oculta de nós. Mas porque
simplesmente não damos atenção e muito menos o devido valor. É algo que
atualmente está na vida de todos e sempre me intrigou muito, geralmente tendo
que me dedicar um bom tempo para essa obra prima.
O
que preencher no campo: “assunto”, no e-mail? Taí uma obra das mais finas e
exemplares que implodem nas nossas caixas de entrada e nem sequer damos bola. O
que colocar como assunto? O objetivo central do e-mail? Às vezes a
particularidade que quero evidenciar? Como mando o e-mail para o médico?
“Paciente de ontem – hemorroida”? Ou ficaria melhor: “Olá Dr Pedro!”? OU “Tá
doendo, pelo amor de Deus!!”. Já passamos também pelo comum: “Victor Brunetti – e-mail”, geralmente porque
somos imbecis demais para deduzir que isso já é um e-mail e nosso nome já está
no outro campo, o famoso “De:”.
Julgo
isso uma forma de arte. Das mais simples, que desafiam nossa mente em resumir e
sintetizar um e-mail, que pode ter uma linha ou um milhão delas. Um exercício difícil.
Hitchcock dizia que a gente sempre precisava saber contar nossos filmes em 1
minuto. Nada mais justo ter de resumir seu e-mail em poucas palavras.
Mas
fico incomodado com uma questão apenas. Não me perturba o fato de o “assunto”
ser variado, diverso, idiota, pequeno, grande, com seu nome ou não. Me
incomoda, e isso é profundo, os sujeitos que são levados pela máquina. É
insuportável, das piores dores desse inferno terrestre, receber um e-mail e o
assunto ser: “RES: ENC: RES: RES: ENC: RES: ENC: RES: RES Oi!”.
Não
sou louco. Apenas valorizo uma pequena arte que passa voando tantas vezes no
nosso dia. Em uma linha e poucas palavras, esta obra prima te gera ódio,
felicidade, suspense, empolgação, medo, curiosidade e, de vez em quando, vírus.
Algo que deve ser preservado em museus, valorizado como uma pintura
renascentista.
O
e-mail me cobra: “Deseja enviar esta mensagem sem assunto?”. Não, nunca,
jamais. Somos artistas e valorizamos a arte nossa de cada dia. E você também
deveria.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
na balada
Nunca
fui muito baladeiro, mas sempre gostei da agitação das baladas. Morar em São
Paulo e não gostar dos eventos noturnos que a cidade propõe é um absurdo.
Então, sim, eu gosto. Claro que temos mil problemas nas baladas, mas ao escutar
todos estes, só pude concluir que existia um muito pior que ninguém falava.
Tem
gente que reclama que é um absurdo oferecer entrada VIP até certo horário, mas
barrar as pessoas para entrar só depois desse horário (eu me incluo nessa lista
de reclamadores. É um absurdo, de fato).
Tem
gente que reclama que a fila pra pegar uma cerveja é enorme, ou que a balada
está muito cheia. Mas também, se estivesse vazia seria um saco. E cá entre nós,
você realmente achou que o Villa Mix estaria vazio de Sábado? Esperando você
chegar?
Mas
a minha reclamação oficial – que julgo a mais importante de todas. É uma
reclamação que espero que todos tenham também e que, com a união dos nossos
poderes, possamos fazer algo para mudar esse ultraje.
Baladas
e bares possuem um grande problema no banheiro: as luzes são automáticas, com
sensor de movimento. Mas os infelizes regulam aquela parada para apagar 5
segundos depois que você começa a fazer xixi. Já é difícil você mirar no buraco
bêbado. Já está de noite e a música está alta, não dá nem pra pedir ajuda. E
você bebeu muita cerveja: o ADH não quer mais saber.
Quando
chega sua gloriosa vez, começa a mais perigosa e importante dança da balada. Ao
mesmo tempo que não podemos errar o alvo, temos que nos mexer o suficiente – e
na região dos sensores – para a luz voltar a acender. O nível de dificuldade desta
missão é proporcional a quantidade de xixi no chão.
Quando
entro no banheiro da balada, e o chão está molhado, eu me preparo. Pra guerra.
Sabemos que os ninjas estão preparados para o mundo das sombras, mas e nós,
meros mortais? Precisamos mentalizar o ambiente. O tênis não pode deslizar. A
tampa da privada, tomara que esteja para cima, já que ninguém vai tocar nela. O
sensor, tomara que esteja perto da privada. E faz força pra ser rápido, já que temos
que vencer a bomba relógio.
Com
uma mão só, ou com o corpo todo, dançamos em busca de luz. A dança mais
importante da balada.
Assinar:
Postagens (Atom)