Todos os residentes do condomínio se reuniram nessa noite de
terça, afinal, terça é o dia que aquele mala trabalha até tarde e ninguém
aguenta sua opinião. A pauta do encontro era o que fazer com a fonte de água
que fica no meio dos prédios e tinha quebrado.
O senhor mais velho começou com toda sua elegância, xingando.
Ele jogou na cara de todos que tinha votado contra a porcaria da fonte, ainda
mais nesse momento de crise de água. Aproveitava para reivindicar o antigo
síndico, muito melhor, dizia ele, e com certeza não toleraria a compra de uma
fonte.
Sua postura agressiva fez levantar uma moça mais jovem,
afirmando que a maioria havia votado positivamente para a fonte, e que ele tem
que respeitar a opinião dos outros, decidida por voto aberto, diga-se de
passagem. Na lei do condomínio, a maioria determinaria as decisões. E pode ter
certeza que a fonte não só embelezou nosso condomínio, como também valorizou.
Queria vender o apartamento e a fonte aumentava alguns percentuais no valor
total.
Um outro moço tomou a iniciativa e depois de uma bela
introdução, afirmou que o lugar da fonte é no entulho: chamamos a equipe de
resgate de fontes, arrancamos fora, e a vida segue, chore quem quiser. Problema
se resolve com força e solução.
Outro moço se levanta, claramente rejeitando a ideia. Como jogar
fora uma obra de arte como essa? Deveríamos preservar! Arte não se quebra, se
valoriza. Uma peça dessas faz a gente pensar todos os dias e refletir. Além do
mais, saiu do dinheiro do prédio, não de ninguém em particular.
A resposta soou mais brava do que deveria, mas não se pode fazer
nada quando o assunto é fonte quebrada. O moço primeiro jogou na cara que uma
parte da fonte é dele, afinal, havia pagado para o prédio, que pagou pela
compra. O moço segundo concorda, mas como a fonte é uma só, não se pode dividir
e a decisão tem que ser conjunta.
Um terceiro moço pede para esquecerem um pouco a fonte e falarem
do síndico. Ele, ora pois, fora quem teve a ideia e trouxe para a pauta. Ainda
faz uma acusação: viu o síndico dar uma nota de vinte reais para o carreteiro
que trouxe a fonte.
Essa informação gerou protestos na sala naquela noite de
terça-feira. O senhor mais velho balbuciou qualquer coisa, algo como achar um
absurdo terem proibido armas. A moça afirmou que o dinheiro fazia parte do
pagamento do carreteiro, e como não tinha nota para emitir, não saiu no
relatório de despesas, mas para todos ficarem tranquilos: o prédio não estava
numa situação tão ruim quanto parecia. O velho não aceitou e queria logo
obstruir a vaga do carro dela, muito melhor que a dele.
Um adolescente, sentindo pulsar seus hormônios na veia da testa,
se levanta já arremessando a cadeira para trás. Sua solução: quebrar tudo e
deixar quebrado para todos verem a inutilidade da fonte. O importante é ver
como vocês são todos imbecis.
Rejeição enorme por parte de todos. Xingamentos, afinal, ele é
jovem, não sabe de nada. Ele pegou sua cadeira e voltou a se sentar, quieto.
Nesse barulho todo, o homem
mala que trabalha até tarde de terça-feira entrou no prédio mais cedo, viu a
fonte sem funcionar. Da sua maleta de engenharia, tirou uma chave de fenda,
mexeu aqui e lá, e pronto, a fonte cuspia água da chuva de novo. O prédio
estava salvo. Quer dizer, só quando acabasse a reunião.
Vi o artigo do seu blog no Catraca livre e logo me interessei. Gosto muito de crônicas, também as escrevo e acabei pondo tudo no blog (como você) para não jogar fora.
ResponderExcluirBem ao estilo de Fernando Sabinópolis, sua crônica me agradou muitíssimo. Com final cômico e surpreendente: exatamente como eu gosto.