Já
fui duramente criticado por muitos por tentar sempre atualizar meu testamento.
Ficam bravos, alegando que sou muito jovem para pensar nessas coisas. O
problema é que as pessoas morrem, aleatoriamente, a toda hora. E quando
escrevemos nosso testamento, refletimos sobre o momento atual da nossa vida.
Lembro
que sempre começo os testamentos dizendo minhas senhas. Nossa vida está
praticamente inteira no laptop, no Dropbox, no e-mail. É mais importante terem
acesso às senhas da internet do que da senha do cofre, que não tenho. Não
precisa ficar fuçando minhas coisas pessoais, mas sempre é bom ter acesso. Vai
que chega um comprovante de depósito de um milhão no meu e-mail?
Logo
em seguido, faço minha doação. Como não tenho quase nada, sempre acredito que
não haverão brigas pela minha cama, meus livros, meu computador e pelo celular.
Um ou outro deve discutir para conseguir minha mesa de DJ, que deve ser o
objeto mais exótico que possuo. Fica com quem quiser.
E
então começo meu sermão, como se já estivesse morto e as pessoas lendo ficariam
comovidas. Algo do tipo, “Se você está lendo isso, eu já fui e, cara, aqui é
muito da hora! Não se assuste se eu aparecer a noite em casa”. Com essa
quebrada de gelo, inicio meu monólogo fúnebre sobre o que foi a vida e como, agora
que não a tenho mais, vocês deveriam aproveitar.
Sempre
caio no clichê do amor. Acho que é o tema que mais pega quando escrevemos
testamentos. Falo um pouco sobre a família, sobre amigos e sobre a namorada.
Coloco frases de efeito características. Deixo claro que mais importante que a
mesa de DJ é poder amar alguém, e ser amado de verdade. Caio na armadilha da
amizade, e elogio as pessoas que sempre estiveram perto de mim. Entro no tema
espiritual, falo sobre como ter a morte sempre a vista te faz viver da melhor
forma possível.
O
testamento vai chegando ao fim, depois de algumas reflexões importantes que
julgo necessárias para tudo. E termino agradecendo. A tudo e todos que passaram
na minha vida. Inclusive o leitor, que se deu o trabalho de chegar nas últimas
linhas.
Atualizar
o testamento é refletir. Depois de escrever o primeiro você vai perceber o que
deixou de fora e deverá concretizar essa ação na própria vida. E ver quem ficou dentro. E
fortalecer estes laços.
E,
claro, termino com uma frase final bacana, daquelas que se eu morrer e tiver um
fã, pode ser que ele tatue no corpo. Sempre importante deixar um marco em vida
para poder tirar vantagem na morte. Sabe como é, você chega onde estou e tem
que competir com Einstein, Jesus, Gandhi, John Lennon, Napoleão, Madre Teresa,
Marx, Da Vinci e todos os bilhões de desconhecidos... É, a morte é um pouco
complicada também.

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