segunda-feira, 11 de maio de 2015

testamento


            Já fui duramente criticado por muitos por tentar sempre atualizar meu testamento. Ficam bravos, alegando que sou muito jovem para pensar nessas coisas. O problema é que as pessoas morrem, aleatoriamente, a toda hora. E quando escrevemos nosso testamento, refletimos sobre o momento atual da nossa vida.
            Lembro que sempre começo os testamentos dizendo minhas senhas. Nossa vida está praticamente inteira no laptop, no Dropbox, no e-mail. É mais importante terem acesso às senhas da internet do que da senha do cofre, que não tenho. Não precisa ficar fuçando minhas coisas pessoais, mas sempre é bom ter acesso. Vai que chega um comprovante de depósito de um milhão no meu e-mail?
            Logo em seguido, faço minha doação. Como não tenho quase nada, sempre acredito que não haverão brigas pela minha cama, meus livros, meu computador e pelo celular. Um ou outro deve discutir para conseguir minha mesa de DJ, que deve ser o objeto mais exótico que possuo. Fica com quem quiser.
            E então começo meu sermão, como se já estivesse morto e as pessoas lendo ficariam comovidas. Algo do tipo, “Se você está lendo isso, eu já fui e, cara, aqui é muito da hora! Não se assuste se eu aparecer a noite em casa”. Com essa quebrada de gelo, inicio meu monólogo fúnebre sobre o que foi a vida e como, agora que não a tenho mais, vocês deveriam aproveitar.
            Sempre caio no clichê do amor. Acho que é o tema que mais pega quando escrevemos testamentos. Falo um pouco sobre a família, sobre amigos e sobre a namorada. Coloco frases de efeito características. Deixo claro que mais importante que a mesa de DJ é poder amar alguém, e ser amado de verdade. Caio na armadilha da amizade, e elogio as pessoas que sempre estiveram perto de mim. Entro no tema espiritual, falo sobre como ter a morte sempre a vista te faz viver da melhor forma possível.
            O testamento vai chegando ao fim, depois de algumas reflexões importantes que julgo necessárias para tudo. E termino agradecendo. A tudo e todos que passaram na minha vida. Inclusive o leitor, que se deu o trabalho de chegar nas últimas linhas.
            Atualizar o testamento é refletir. Depois de escrever o primeiro você vai perceber o que deixou de fora e deverá concretizar essa ação na própria vida. E ver quem ficou dentro. E fortalecer estes laços.

            E, claro, termino com uma frase final bacana, daquelas que se eu morrer e tiver um fã, pode ser que ele tatue no corpo. Sempre importante deixar um marco em vida para poder tirar vantagem na morte. Sabe como é, você chega onde estou e tem que competir com Einstein, Jesus, Gandhi, John Lennon, Napoleão, Madre Teresa, Marx, Da Vinci e todos os bilhões de desconhecidos... É, a morte é um pouco complicada também.

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