segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

carregadores

Tenho um ao lado da cama, um no carro e um ambulante, dentro da mochila. Era um homem feliz e não sabia. Como eram fáceis e planejadas as recargas do bendito smartphone. Depois da adaptação inicial do “carrego meu Nokia uma vez por mês” para o “carrego a cada 10 minutos meu IPhone”, tudo entrou na normalidade com os 3 cabos que tinha.

            Até a Apple resolver trocar os carregadores do 4 pro 5. Ingenuamente, feliz com a possibilidade de conseguir um celular melhor, fiz a troca de aparelhos. E então os problemas começaram. 

            O cabo do lado da cama fica preso numa tomada escondida e por tal motivo não é nunca feito para ser itinerante. 

            O cabo de dentro do carro serve unicamente para tocar música nos horários que programas de rádio são insuportáveis. 

            O cabo ambulante serve para recarregar no trabalho e nas situações de risco, quando o mal se espreita (tipo uma colação de grau de faculdade – só vive quem tem bateria cheia).

            O celular novo vinha com só um cabo. É quase vender um carro com só uma roda. E com um cabo, o destino me parecia assombroso. Foram 2 meses de puro terror, em que se esquecia o cabo em casa, dentro do carro, escutando programas de rádio ruim porque o cabo ficou no trabalho. O horror, o horror.

            Comprei o segundo cabo. O mundo parecia um lugar menos tenebroso e garanti que o cabo do lado da cama ficasse lá, intacto. Fiquei feliz.

Se um dia alguém quiser acabar com o mundo, vão começar a propor o racionamento de carregadores de celular. Depois da água e da internet, carregadores estão em terceiro na lista de prioridades do dia-a-dia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

reféns

Somos para sempre reféns das páginas brancas (ou qualquer outra cor uniforme), vazias. São elas que nos encaram e nos ameaçam: sou capaz de te colocar no chão, acabar com sua raça, expor sua infinita miserabilidade. São do mal, são ruins. E sabem fazer a gente sofrer.
            Desde criança. Ela te encara e manda: cria uma casinha, com o sol atrás e nuvens, quero ver. E quem sabe desenhar um sol? Ou uma nuvem? Nuvens eram azuis na minha época. E o sol tinha vários braços. E às vezes uma carinha no meio. O papel te olha e fala: você é incompetente, mas vai com tudo. Quem sabe um dia você melhora. Quem sabe...
            E a gente melhora. Depois dos desenhos, a gente descobre a beleza gigante das palavras e letras, vários desenhos que colocados na ordem certa, criam imaginações. O papel te encara de novo: você passou no teste do desenho, apesar de medíocre. Palavras, quero ver você me preencher. E você vai fundo. Troca os desenhos-letras por outros desenhos-letras. Inventa novos. Aprende a colocar a sonoridade do seu nome em desenhos. E mais no futuro, consegue descrever o que foram suas férias de verão num papel em branco, cheio de letras e palavras, tortas, erradas e coloridas, mas significativas.
            O papel se diverte, ri um pouco da sua cara. Te conhece melhor que você mesmo, seus defeitos, suas trocas do V por F, sua assinatura secreta, suas cartas de amor nunca entregues. E ele ri. Ri alto até você transformá-lo numa bola e arremessa-lo. Ele gosta. Nunca morre, apenas desaparece, se transforma em picadinho, em rascunho, em poeira dentro de pastas escritas 5ªB – 1999.
            E você persiste nessa missão de pintar todos os papéis em branco. Com textos, desenhos, rabiscos, trabalho, online e off-line. Uma missão pra vida. E com o tempo você entende porque o sr. Papel te fazia sofrer, te obrigava a preenche-lo de qualquer forma possível. Ele é refém da própria condição. Papéis em branco são como qualquer outra coisa no mundo. Agora quando preenchemos o sujeito, ele se transforma, ele é único, especial, seu ou presente para alguém. Ele é importante, seja uma nuvem azul, um sol com braços, sua primeira assinatura, ou um Dostoievski.  

            Somos reféns do próprio refém. E para sempre assim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

a nossa iniciação

Todos que são da minha geração pra cima, e um pouquinho para baixo, tiveram que passar pela iniciação tecnológica da vida. Foi o processo árduo de ler manuais de instrução de um trilhão de objetos tecnológicos que chegaram e a gente nem sabia o que fazer. Passar a entender uma lógica diferente no mundo.
            Já escrevi numa crônica sobre a primeira fita de videogame que ganhei. Não fazia o menor sentido aquela peça de plástico, sem botão, que não era uma mini-televisão e aparentemente não servia pra nada. Mas fui iniciado no universo e tive que aprender a mexer em tecnologia (seja lá o que isso seja).
            Com 16 anos ganhei meu primeiro celular, comecei a engatinhar na área e, a pedidos do meu pai, li todo o manual de instrução. Como se fosse uma prova. Desesperado, caso eu clicasse o botão que alterasse a língua para o Tailandês e não soubesse como voltar.
            O primeiro computador que meu irmão ganhou, isso sim era um sucesso. Virei adulto em menos de 2 meses: sabia abrir e fechar aquela CPU, colocar a placa de LAN, placa de vídeo, mudar o HD de lugar, colocar mais memória RAM. Noites em claro para fazer a internet discada e depois wi-fi funcionar (Orinoco, alguém? Ou só foi lá em casa essa piada?).
            Os livros e manuais de instrução ocupavam prateleiras inteiras em casa. A Barsa foi dando espaço aos “Como montar uma planilha no Excel”, “Formate seu computador com Windows 97”, instalação do primeiro The Sims (37 CDs e uma vida inteira).
            E ai, de repente, tudo ficou fácil. Não vinham mais manuais de instrução e sim garantias de compra e adesivos de maçã. Não tinha nem mais como abrir o computador. Games? Só clicar no botão da nuvem que ele aparece no seu console. Tudo virou uma coisa só que até um homem das cavernas (leia-se "nossos avôs") conseguem mexer.
            Como pregadores da nossa própria educação, às vezes sinto que fará falta às próximas gerações saberem abrir um celular. Ou não, e eu que perdi um tempão com esses manuais de instrução.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

prelúdios

Mesmo sendo uma abstração, a gente foi obrigado a metrificar o tempo, dividir em passado, presente, futuro. E somos “pros” nisso: chegamos à milésima parte do segundo, que não serve pra nada a não ser falar que conseguimos mensurar o tempo. Só de escrever isso, se passaram trilhões de milésimos de segundo. Get a girlfriend.

            Mas a beleza de contar o tempo é perceber que sempre antes de algo muito bom, vem algo muito ruim. Já dizia o famoso Asterix: “Depois da tempestade virá a bonança”. E temos que concordar, já que eles tinham medo de o céu cair na cabeça deles e mesmo assim acreditavam que o sol viria.

            Por exemplo, depois dessa nossa criação real que se chama “inferno-astral”, vem nosso aniversário. A vida fica pior antes de “melhorar” na virada do seu ano-vida.

            Depois do jantar, vem a sobremesa. E tentando não dar nome aos bois, quase sempre a sobremesa é melhor que o prato.

            Depois do outono vem o inverno, depois a primavera e depois o verão. Não preciso nem discutir.

            Depois de um post, vem as curtidas - convenhamos, é para isso que você posta qualquer coisa no Facebook.

            Depois do Natal, vem o Ano novo. E depois o Carnaval. E no caso de 2014, a Copa do Mundo. Sensacional.

            Depois de um bom filme, livro, peça, vem emoções, pensamentos e conhecimento.

            Depois de um machucado, vem a casquinha pra você tirar.

            Depois de um pt alcóolico, vem a paz de dormir sem bebidas no seu corpo.

            Depois do almoço pesado desnecessário, vem a soneca.

            A lista é infinita e só existe porque o tempo deixa você colocar uma coisa antes, e sua consequência depois. Prelúdios são lindos porque são horríveis. Quer ver tudo ficar bom? Deixa ficar ruim antes.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

histórias de pescador

To chegando!
            Como você tá linda! Que saudade!
            Tá tranquilo, to pagando bem as contas. Até sobra no final do mês.
            Cheguei rapidinho hoje. A rua tava vazia.
            Adorei o filme. Tem uma fotografia incrível. E aquele figurino? Ah!
            É logo ali, rapidinho.
            Inglês e espanhol fluentes (quase nativo).
            28 centímetros.
            Sou TIM, pode ligar que pega aqui.
            É só uma virose, toma um Tylenol.
            O melhor bolo de chocolate do mundo.
            Não dá, vou trabalhar até tarde.
            A missa não vai demorar.
            É gourmet porque o requeijão vem dos Alpes.
            Bebi pouco ontem a noite.
            Bebi pra cacete ontem a noite!
            Tudo que é bom dura muito. E o ruim, passa rápido.
            Não me joguem na piscina no meu aniversário!
            Chuchu faz bem pra saúde. E brócolis. E couve-flor.
            Você vai comer sorvete no frio?
            Você emagreceu! Tá na cara!
            O metro tava vazio.
            Lê meu roteiro. Próximo ganhador do Oscar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

profissão dos sonhos

Desde que somos pequenos, sonhamos não na nossa profissão, mas no que “queremos ser”. Nem sabemos o que significa uma “profissão”, muito menos ser pago por isso.
            Existem milhares de profissões. E quase todas delas não fazem parte do círculo das “profissões mais legais do mundo”. E você sabe do que eu estou falando...
            Ninguém com 2 anos de idade acordou e disse “papai! Mamãe! Quero ser contador!”. Ou fazer um desenho na escola dele próprio no futuro sentado na frente de um computador, olhando pasmo para a tela. Ou pediu na cartinha do Papai Noel uma vassoura e uma pá.
            O que deixa bem claro que a profissão difere muitas vezes do que “queremos ser”. Pra fazer uma lista rápida, quando criança eu queria:
-       - trabalhar num caminhão de lixo
-       - ser dono de uma banca de revista e jornal (mal sabia da era da tecnologia que viria)
-       - viver dentro de um filme (não estou falando de Godard, estou falando de Missão Impossível)
-      - Dirigir um ônibus para levar todos para todos os lugares
-      - Explorador
-      - Paleontólogo (não sabia falar essa palavra, mas queria achar ossos de dinossauro no chão – preferencialmente em casa)
-      - Criador de tatu-bola (ou pelo menos ter um como meu grande amigo)

Claramente não sou nenhuma das opções citadas acima. Mas de repente seria bom pensar o porquê eu era atraído por essas coisas e encontrar de fato não uma profissão, mas algo que deixará de “querer ser” para “ser”. Encontrar na sua versão adulto um respiro do que queria ser quando criança.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

por um mundo com mais parkour

Os mais próximos sabem, e para quem não tem ideia, eu tenho feito aulas de parkour. Do jeito que explico para o resto do mundo: sabe aqueles idiotas que ficam pulando coisas e se pendurando na cidade? Uns franceses retardados. Boa parte sabe o que é, a outra parte eu mostro um vídeo do YouTube e eles passam a aceitar, sem muito entender. E se não entendeu, Google.
            Que tipo de retardado faz um negócio desses? E com qual objetivo? Quando jogamos futebol, vôlei, queremos ganhar do outro time. Quando corremos, queremos chegar até o fim. Quando jogamos paciência no computador, queremos encher a tela com um monte de cartas que ficam pulando quando ganhamos (saudade do Windows).
            E qual o objetivo dessa palavra em francês?! E percebi só depois que era exatamente isso um dos maiores atrativos que eu tinha por esse esporte. O objetivo do parkour, simples e resumido, é ultrapassar obstáculos de forma rápida, fluida e silenciosa.
Inconscientemente, parkour era pra mim pequenas conquistas que evoluem e melhoram com a experiência e prática. Assim como a vida. É difícil, tem mil coisas no caminho. Tem gente que passa atropelando tudo, derrubando, se machucando. Tem gente que tem que ir como uma lesma pra conseguir chegar. Tem gente que faz um estardalhaço, um furacão.
            Quero chegar no fim da vida com o parkour. Passar as dificuldades de forma rápida, fluida e silenciosa. E apreciar o próximo obstáculo, seja lá qual for, porque o parkour tem sempre objetivo, mas não tem fim.

Por uma vida com mais parkour.